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O desejo que só se satisfará na eternidade
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29 de Julho de 2016 / 0 Comentários
 
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Redação - (Sexta-feira, 29/07/2016, Gaudium Press) - Os últimos raios tênues de sol em um sábado de fevereiro indicavam que o astro rei logo cederia lugar às trevas da noite. Uma muda e desapercebida melancolia já se fazia sentir, quando o céu se cobriu de um magnífico dégradé: o dourado se mesclou com tons róseos e avermelhados, que, por sua vez, deram lugar a um azul-marinho. As plantas, antes iluminadas por uma luz dourada, agora refletiam um discreto lilás. Quase uma delicadeza do sol, querendo compensar, com a beleza de sua saída, as horas em que se ausentaria.

arautos-do-evangelho-por-do-sol.jpg

Uma Irmã andava pelo pátio contemplando embevecida esse espetáculo, quando se deparou com um jovem cabisbaixo. O que fazia ele por ali? Por que não entrara na igreja com seus familiares?

- Sou ateu.

- Ateu? - redarguiu a religiosa. - Tão jovem.... Não foi educado na fé? Ou então, como a perdeu? Olhe para a natureza, não precisa ir muito longe: olhe o pôr-do-sol! Como essa maravilha seria possível sem um Ser Todo-poderoso por detrás?

- Não... Esse é um fenômeno comum e facilmente explicado pela ciência.

Nesse momento, os familiares do rapaz saíram da igreja e chamaram-no para ir embora. Este não é um caso isolado na sociedade atual. A teologia, contudo, não se intimida diante da comprovação racional da existência de Deus. Pelo contrário, reúne em si séculos de tradição e pensamento que podem dar ao homem a única e ideal solução para suas inquietações. Com efeito, afirma o grande Santo. Agostinho que nosso coração foi feito para Deus e inquieto ele está até que não repouse no Senhor.

1. À luz da razão conhece-se a existência, mas não a essência divina

Deus não seria Deus, porém, se pusesse na alma humana a sede do infinito e a inquietação, quando não o encontra, e não pusesse ao alcance os meios para que todos chegassem a conhecê-lo.

Ora, aqui o próprio Santo Tomás de Aquino apresenta uma objeção: o homem é um composto de espírito e matéria, e, por causa desta, seu conhecimento, parte do sensível: é a clássica afirmação de Aristóteles, adotada pelo Aquinate e por São Boaventura, que em sua obra Itinerarium Mentis a Deo assim se expressa:

O homem, chamado de microcosmos, tem cinco sentidos como cinco portas, pelas quais entra em nossa alma o conhecimento de todas as coisas que existem no mundo sensível. Com efeito, pela vista, entram os corpos sublimes: os luminosos e os demais colorados, pelo tato, os corpos sólidos e terrestres; pelos sentidos intermediários, os corpos intermediários, como os aquosos pelo paladar, os aéreos pela audição, e pelo olfato os evaporáveis que têm algo da natureza úmida, algo da aérea, algo da ígnea ou quente, como se pode ver no fumo que dos aromas se desprende'.

Contudo, Deus é puro espírito e, sendo incorpóreo, não pode ser captado pelos nossos sentidos, de onde se poderia concluir que pela nossa razão não podemos chegar ao conhecimento de Deus. Com sua clareza específica, o Doutor Angélico continua sua exposição, respondendo ele próprio sua oposição.

O conhecimento que se obtém através do sensível não pode chegar a conhecer todo o poder de Deus. Consequentemente, tampouco pode ver sua essência. Mas, como são efeitos dependentes d'Ele como causa, nesse sentido podemos partir dos efeitos para saber que Deus existe2.

Portanto, aqui está o ponto de equilíbrio: nesta terra podemos conhecer a existência e até algo da essência divina, mas somos incapazes de conhecer positivamente o que constitui a própria deidade (quididade). Por ora somos quais morcegos que, incapazes de ver o sol, permanecem constantemente imersos na escuridão, e o sol, indiferentemente, brilha sobre ele. O sol existe e é real, mas o morcego não tem em sua natureza capacidade para vê-lo. Entretanto, tem notícia de sua existência ao sentir o calor.

2. Dos efeitos à Causa: as criaturas, um reflexo do Criador

Conforme acima mencionado, partindo dos efeitos, portanto, das criaturas, podemos remontar à Causa, o Criador. Em primeiro lugar, a primeira prova que engloba todas as outras é o princípio do mundo. Hoje em dia há muitos adeptos a teorias que defendem a independência da origem do mundo de um Ser Criador. Ora, em todas as soluções apresentadas, há logo de início um erro que vai contra o procedimento normal da natureza: nunca um ser inferior dá origem ao superior, mas sim o contrário. Por isso, era impossível que o mundo passasse espontaneamente a existir sem uma Mente por trás.

Além disso, ainda o grande São Boaventura afirma que as coisas criadas formam uma escada que nos conduzem a Deus, um magnífico caminho que começa à tarde, na penumbra da irracionalidade dos primeiros graus da criação - são os vestígios de Deus -, continua pela manhã, no alvorecer das criaturas inteligentes, nas quais a alma do próprio caminhante se integra, e, por fim, termina no meio-dia, no Princípio Primeiro, isto é, na alegria do conhecimento de Deus e na reverência de sua majestade 3.

O que, porém, Deus deixa entrever através do criado que nos faz vislumbrar como Ele é? Vemos nas criaturas sucessivos graus de perfeição, participação da Perfeição infinita, ou seja, divisamos seus atributos: a Beleza, a Bondade, a Verdade, a Onipotência ademais de um longo cortejo de perfeições.

O itinerário da mente a Deus, não há homem, ciente das verdades reveladas ou não que seja incapaz de fazê-lo. São Paulo, em sua carta aos romanos, repreende-os duramente, afirmando causa de sua imoralidade sua recusa de subir a "escada" natural rumo a Deus:(falta alguma pontuação, algo nesta frase.

Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.

Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! (Rm 19-25)

3. Quem é Deus?

Chegamos quase ao fim do presente texto sem podermos responder com sucesso a questão que planteávamos desde o início. Ponderamos como a criação reflete o Criador, vimos que chegamos a uma pálida noção de como Ele é, mas não dissemos quem Ele é.

Para compreender a Deus, segundo a razão própria e íntima de Deidade, é preciso uma revelação sobrenatural; só a fé divina nos permite aqui embaixo conhecer obscuramente o mistério da vida íntima de Deus, mas, para saber com evidência o que é a Deidade, não há outro meio senão vê-la imediatamente, como os bem-aventurados4.

Convido-o, leitor, a compartilharmos no Céu da visão que teremos de Deus, pois, neste mundo, vivemos apenas na esperança de ver o que pela fé acreditamos. "Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido" (iCor 12,13).

Por Ir Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP
(Do Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica - IFTE)

....................................................

1 SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 2, parágrafo 3. (Tradução pessoal).

2 S. Th. I, q.12, a.12

3 Cf. SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 1, parágrafos 2 e 3.

4 GARRIGOU-LAGRANGE. Les perfections divines. 4.ed. Paris: G. Beauchesne et ses fils, 1936. p. 41. (Tradução pessoal)

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O desejo que só se satisfará na eternidade

Redação - (Sexta-feira, 29/07/2016, Gaudium Press) - Os últimos raios tênues de sol em um sábado de fevereiro indicavam que o astro rei logo cederia lugar às trevas da noite. Uma muda e desapercebida melancolia já se fazia sentir, quando o céu se cobriu de um magnífico dégradé: o dourado se mesclou com tons róseos e avermelhados, que, por sua vez, deram lugar a um azul-marinho. As plantas, antes iluminadas por uma luz dourada, agora refletiam um discreto lilás. Quase uma delicadeza do sol, querendo compensar, com a beleza de sua saída, as horas em que se ausentaria.

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Uma Irmã andava pelo pátio contemplando embevecida esse espetáculo, quando se deparou com um jovem cabisbaixo. O que fazia ele por ali? Por que não entrara na igreja com seus familiares?

- Sou ateu.

- Ateu? - redarguiu a religiosa. - Tão jovem.... Não foi educado na fé? Ou então, como a perdeu? Olhe para a natureza, não precisa ir muito longe: olhe o pôr-do-sol! Como essa maravilha seria possível sem um Ser Todo-poderoso por detrás?

- Não... Esse é um fenômeno comum e facilmente explicado pela ciência.

Nesse momento, os familiares do rapaz saíram da igreja e chamaram-no para ir embora. Este não é um caso isolado na sociedade atual. A teologia, contudo, não se intimida diante da comprovação racional da existência de Deus. Pelo contrário, reúne em si séculos de tradição e pensamento que podem dar ao homem a única e ideal solução para suas inquietações. Com efeito, afirma o grande Santo. Agostinho que nosso coração foi feito para Deus e inquieto ele está até que não repouse no Senhor.

1. À luz da razão conhece-se a existência, mas não a essência divina

Deus não seria Deus, porém, se pusesse na alma humana a sede do infinito e a inquietação, quando não o encontra, e não pusesse ao alcance os meios para que todos chegassem a conhecê-lo.

Ora, aqui o próprio Santo Tomás de Aquino apresenta uma objeção: o homem é um composto de espírito e matéria, e, por causa desta, seu conhecimento, parte do sensível: é a clássica afirmação de Aristóteles, adotada pelo Aquinate e por São Boaventura, que em sua obra Itinerarium Mentis a Deo assim se expressa:

O homem, chamado de microcosmos, tem cinco sentidos como cinco portas, pelas quais entra em nossa alma o conhecimento de todas as coisas que existem no mundo sensível. Com efeito, pela vista, entram os corpos sublimes: os luminosos e os demais colorados, pelo tato, os corpos sólidos e terrestres; pelos sentidos intermediários, os corpos intermediários, como os aquosos pelo paladar, os aéreos pela audição, e pelo olfato os evaporáveis que têm algo da natureza úmida, algo da aérea, algo da ígnea ou quente, como se pode ver no fumo que dos aromas se desprende'.

Contudo, Deus é puro espírito e, sendo incorpóreo, não pode ser captado pelos nossos sentidos, de onde se poderia concluir que pela nossa razão não podemos chegar ao conhecimento de Deus. Com sua clareza específica, o Doutor Angélico continua sua exposição, respondendo ele próprio sua oposição.

O conhecimento que se obtém através do sensível não pode chegar a conhecer todo o poder de Deus. Consequentemente, tampouco pode ver sua essência. Mas, como são efeitos dependentes d'Ele como causa, nesse sentido podemos partir dos efeitos para saber que Deus existe2.

Portanto, aqui está o ponto de equilíbrio: nesta terra podemos conhecer a existência e até algo da essência divina, mas somos incapazes de conhecer positivamente o que constitui a própria deidade (quididade). Por ora somos quais morcegos que, incapazes de ver o sol, permanecem constantemente imersos na escuridão, e o sol, indiferentemente, brilha sobre ele. O sol existe e é real, mas o morcego não tem em sua natureza capacidade para vê-lo. Entretanto, tem notícia de sua existência ao sentir o calor.

2. Dos efeitos à Causa: as criaturas, um reflexo do Criador

Conforme acima mencionado, partindo dos efeitos, portanto, das criaturas, podemos remontar à Causa, o Criador. Em primeiro lugar, a primeira prova que engloba todas as outras é o princípio do mundo. Hoje em dia há muitos adeptos a teorias que defendem a independência da origem do mundo de um Ser Criador. Ora, em todas as soluções apresentadas, há logo de início um erro que vai contra o procedimento normal da natureza: nunca um ser inferior dá origem ao superior, mas sim o contrário. Por isso, era impossível que o mundo passasse espontaneamente a existir sem uma Mente por trás.

Além disso, ainda o grande São Boaventura afirma que as coisas criadas formam uma escada que nos conduzem a Deus, um magnífico caminho que começa à tarde, na penumbra da irracionalidade dos primeiros graus da criação - são os vestígios de Deus -, continua pela manhã, no alvorecer das criaturas inteligentes, nas quais a alma do próprio caminhante se integra, e, por fim, termina no meio-dia, no Princípio Primeiro, isto é, na alegria do conhecimento de Deus e na reverência de sua majestade 3.

O que, porém, Deus deixa entrever através do criado que nos faz vislumbrar como Ele é? Vemos nas criaturas sucessivos graus de perfeição, participação da Perfeição infinita, ou seja, divisamos seus atributos: a Beleza, a Bondade, a Verdade, a Onipotência ademais de um longo cortejo de perfeições.

O itinerário da mente a Deus, não há homem, ciente das verdades reveladas ou não que seja incapaz de fazê-lo. São Paulo, em sua carta aos romanos, repreende-os duramente, afirmando causa de sua imoralidade sua recusa de subir a "escada" natural rumo a Deus:(falta alguma pontuação, algo nesta frase.

Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.

Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! (Rm 19-25)

3. Quem é Deus?

Chegamos quase ao fim do presente texto sem podermos responder com sucesso a questão que planteávamos desde o início. Ponderamos como a criação reflete o Criador, vimos que chegamos a uma pálida noção de como Ele é, mas não dissemos quem Ele é.

Para compreender a Deus, segundo a razão própria e íntima de Deidade, é preciso uma revelação sobrenatural; só a fé divina nos permite aqui embaixo conhecer obscuramente o mistério da vida íntima de Deus, mas, para saber com evidência o que é a Deidade, não há outro meio senão vê-la imediatamente, como os bem-aventurados4.

Convido-o, leitor, a compartilharmos no Céu da visão que teremos de Deus, pois, neste mundo, vivemos apenas na esperança de ver o que pela fé acreditamos. "Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido" (iCor 12,13).

Por Ir Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP
(Do Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica - IFTE)

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1 SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 2, parágrafo 3. (Tradução pessoal).

2 S. Th. I, q.12, a.12

3 Cf. SÃO BOAVENTURA. Itinerario de la mente a Dios. Capítulo 1, parágrafos 2 e 3.

4 GARRIGOU-LAGRANGE. Les perfections divines. 4.ed. Paris: G. Beauchesne et ses fils, 1936. p. 41. (Tradução pessoal)

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no link http://www.gaudiumpress.org/content/80999-O-desejo-que-so-se-satisfara-na-eternidade. Autoriza-se a sua publicação desde que se cite a fonte.



 

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