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O arquiteto do Big Ben
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20 de Outubro de 2016 / 0 Comentários
 
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Redação (Quinta-feira, 20-10-2016, Gaudium Press) Entre os numerosos visitantes que acorrem à cidade de Londres, não há um que não tenha por principal objetivo da viagem conhecer o edifício do Parlamento e contemplar de perto a imponente Elizabeth Tower, ou Torre do Big Ben, como é mais comumente conhecida.

O arquiteto do Big Ben.png

Que no alto dela se encontra o mais famoso relógio do mundo, símbolo da pontualidade britânica, é algo que ninguém ignora. Contudo, poucos conhecem ser seu esguio desenho fruto da genialidade de um arquiteto católico que fez da propagação da arte cristã um instrumento de evangelização: Augustus Welby Northmore Pugin.

Filho de um aristocrata francês emigrado para a Inglaterra durante a Revolução Francesa, nasceu ele no dia 1º de março de 1812 em Bloomsbury, região central de Londres. Educado dentro dos cânones mais estritos do protestantismo, conforme ele mesmo testemunhou, sua formação religiosa foi desde cedo pautada por uma série de preconceitos contra a Igreja, levando-o a desprezar a religião que anos depois abraçaria com sincero entusiasmo.

"Meus olhos viram a vossa salvação"

Desde a adolescência dedicou-se ardorosamente ao estudo da arte, logo se destacando por seu singular talento. Sendo ainda muito jovem, elaborou seus primeiros projetos em conjunto com o pai, que era um renomado ilustrador e teórico da arquitetura medieval. Com apenas 19 anos assumiu importantes trabalhos, como o desenho de móveis e peças decorativas para o Castelo de Windsor, uma das residências oficiais da realeza britânica.

Empenhava-se também no estudo da arquitetura antiga, e foi justamente folheando livros sobre as origens da arte cristã que se deparou com um tema que abriu um novo campo em suas cogitações e exerceu decisiva influência em sua conversão: a liturgia católica.

"Com que prazer comecei a esquadrinhar cada parte daquelas gloriosas construções erigidas para as celebrações litúrgicas! Descobri então que as cerimônias litúrgicas às quais eu costumava assistir e admirar eram apenas um remanescente frio e sem coração daquelas glórias passadas. E as orações que na minha ignorância eu tinha atribuído à piedade da Reforma não passavam de fragmentos extraídos dos solenes e perfeitos ritos da Igreja Antiga. [...] Em oposição a tudo isso, considerei a Igreja Católica, existindo com a sucessão apostólica ininterrupta, transmitindo a mesma fé, Sacramentos e as cerimônias imutáveis, inalteradas em todos os climas, línguas e nações".1

No período de 1832 a 1834 - anos determinantes para a sua conversão - viajou por diversos países, com o intuito de conhecer as principais edificações góticas da Europa. Uma destas lhe chamou de modo especial a atenção: a igreja de São Lourenço, em Nuremberg. Ao entrar nela, Pugin surpreendeu-se com a magnificência deste edifício sacro, considerado um dos mais belos exemplares da arquitetura gótica alemã.

Começou por demorar-se em apreciar as esguias colunas da nave central, os vitrais e os altares laterais. Em seguida, seus olhos se fixaram numa imensa guirlanda de flores douradas, suspensa sobre o presbitério. E contemplou, absorto, a bela imagem da Virgem Maria colocada no centro desse grande círculo floral, recebendo do Anjo Gabriel o anúncio de que seria a Mãe de Deus. Movido pelo forte sentimento de enlevo que sentiu diante daquela representação, confidenciou pouco depois a um amigo: "Eu bem poderia fazer minhas as palavras do profeta Simeão: ‘Agora, Senhor, deixai ir em paz o vosso servo, pois meus olhos viram a vossa salvação' (Lc 2, 29-30)".2

"Tornei-me um humilde, mas verdadeiro, membro fiel"

Seu encanto pelo esplendor da liturgia católica aumentava a cada dia, e ele não resistiu durante muito tempo à "força irresistível da verdade", conforme suas próprias palavras.

O arquiteto do Big Ben.png

"Por mais de três anos", explica, "prossegui com toda sinceridade no estudo deste tão importante assunto, e a força irresistível da verdade foi penetrando em meu coração. Submeti de bom grado meu falível julgamento às decisões infalíveis da Igreja e, abraçando de alma e coração a sua fé e disciplina, tornei-me um humilde, mas verdadeiro membro fiel".3

Em outra ocasião, Pugin manifestou mais claramente a influência da arte cristã em sua conversão: "Aprendi as verdades da Igreja Católica nas criptas das velhas igrejas e catedrais europeias. Procurei a verdade na moderna igreja da Inglaterra e descobri que ela, desde que se separou do centro da unidade católica, tinha pouca verdade e nenhuma vida. Dessa maneira e sem ter conhecido um só sacerdote, ajudado apenas pela graça e misericórdia de Deus, resolvi entrar na sua Igreja".4

Daí em diante, Pugin consagrou o melhor de seu talento a serviço da Igreja, pois em sua alma já não existia distinção "entre a sua fé e a sua arte".5 Sua capacidade criativa manifestou-se prodigiosamente nas catedrais católicas de Birmingham (Inglaterra) e Enniscorthy (Irlanda), em igrejas como a de Saint Gilles, em Cheadle (Inglaterra), mas também no desenho de utensílios sagrados, púlpitos ou altares.

Revestir de pulcritude a Casa de Deus

O desejo de revestir de beleza a casa de Deus foi apontado por um dos seus biógrafos como uma de suas mais constantes aspirações. E tão forte era esse anelo que o autor aplicou ao arquiteto as palavras do Rei Profeta: "O zelo por tua casa me consome" (Sl 68, 10).6


Em seu entusiasmo pelas celebrações litúrgicas, insistia em que elas deviam ser sempre realizadas com pompa e esplendor. Isto o levou a doar ricos paramentos de ouro e púrpura para serem utilizados na solene cerimônia de inauguração da
Igreja de Santa Maria, em Derby.

Seu raio de ação estendeu-se também ao âmbito acadêmico. Escreveu diversos livros sobre liturgia e arquitetura, graças aos quais é considerado um dos mais influentes teóricos da arquitetura britânica do século XIX. Com apenas 25 anos, foi nomeado professor de História Eclesiástica em Scott e publicou em seguida um glossário sobre os costumes e os ornamentos eclesiásticos. Em sua principal obra, intitulada Contrastes, traça um paralelo entre as construções medievais e os edifícios erigidos em seu tempo, apontando a superioridade das primeiras.

O projeto da Torre do Big Ben

No dia 16 de outubro de 1834 um incêndio de grandes proporções destruiu quase todo o antigo Palácio de Westminster, cujas origens remontavam ao século XI. Para substituí-lo, a Câmara dos Lordes decidiu construir um novo prédio que sobrepujasse em beleza e magnificência o anterior Pugin, então com 24 anos, foi um dos escolhidos para projetá-lo.

A construção estendeu-se por muitos anos, e em 1850 ainda faltava o projeto da grande Torre do Relógio. Nesse período, viu-se Pugin acometido por uma doença que paulatinamente fez definhar sua força física, mas não seu gênio criador. Mesmo estando já gravemente enfermo, Sir Charles Barry decidiu encomendar-lhe o desenho dessa torre.

O arquiteto do Big Ben.png

Sentindo que lhe restava pouco tempo de vida, Pugin afirmou: "Devemos trabalhar pela causa enquanto temos fôlego".7 E nunca, segundo confidenciou a um amigo, trabalhara tão arduamente como na preparação desse projeto.

Muitas vezes, ao contemplar as paredes das catedrais ou estudar os textos litúrgicos, Pugin meditara sobre o admirável duelo da vida e da morte. Agora via essa batalha travar-se em seu próprio corpo. Deu de si mesmo este testemunho, alguns dias antes de falecer: "Aprendi a amar a Deus de tal forma que a morte nada tem de terrível aos meus olhos. Sinto-me resignado como se tivesse de fazer uma viagem".8 Com essas disposições, entregou a Deus sua alma no dia 14 de setembro de 1852, depois de receber os últimos Sacramentos.

Foi, pois, sob o signo da dor e do sofrimento cristãos que Pugin projetou a Torre do Big Ben, legando à Inglaterra um dos seus símbolos mais conhecidos. Nela se conjugam força e delicadeza, estabilidade e elevação. Serena e afável, ela representa a estabilidade dos valores perenes que jamais mudarão.

Pe. Inácio de Araújo Almeida, EP
(in "Revista Arautos do Evangelho", n. 153, p. 16 à 18)

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O arquiteto do Big Ben

Redação (Quinta-feira, 20-10-2016, Gaudium Press) Entre os numerosos visitantes que acorrem à cidade de Londres, não há um que não tenha por principal objetivo da viagem conhecer o edifício do Parlamento e contemplar de perto a imponente Elizabeth Tower, ou Torre do Big Ben, como é mais comumente conhecida.

O arquiteto do Big Ben.png

Que no alto dela se encontra o mais famoso relógio do mundo, símbolo da pontualidade britânica, é algo que ninguém ignora. Contudo, poucos conhecem ser seu esguio desenho fruto da genialidade de um arquiteto católico que fez da propagação da arte cristã um instrumento de evangelização: Augustus Welby Northmore Pugin.

Filho de um aristocrata francês emigrado para a Inglaterra durante a Revolução Francesa, nasceu ele no dia 1º de março de 1812 em Bloomsbury, região central de Londres. Educado dentro dos cânones mais estritos do protestantismo, conforme ele mesmo testemunhou, sua formação religiosa foi desde cedo pautada por uma série de preconceitos contra a Igreja, levando-o a desprezar a religião que anos depois abraçaria com sincero entusiasmo.

"Meus olhos viram a vossa salvação"

Desde a adolescência dedicou-se ardorosamente ao estudo da arte, logo se destacando por seu singular talento. Sendo ainda muito jovem, elaborou seus primeiros projetos em conjunto com o pai, que era um renomado ilustrador e teórico da arquitetura medieval. Com apenas 19 anos assumiu importantes trabalhos, como o desenho de móveis e peças decorativas para o Castelo de Windsor, uma das residências oficiais da realeza britânica.

Empenhava-se também no estudo da arquitetura antiga, e foi justamente folheando livros sobre as origens da arte cristã que se deparou com um tema que abriu um novo campo em suas cogitações e exerceu decisiva influência em sua conversão: a liturgia católica.

"Com que prazer comecei a esquadrinhar cada parte daquelas gloriosas construções erigidas para as celebrações litúrgicas! Descobri então que as cerimônias litúrgicas às quais eu costumava assistir e admirar eram apenas um remanescente frio e sem coração daquelas glórias passadas. E as orações que na minha ignorância eu tinha atribuído à piedade da Reforma não passavam de fragmentos extraídos dos solenes e perfeitos ritos da Igreja Antiga. [...] Em oposição a tudo isso, considerei a Igreja Católica, existindo com a sucessão apostólica ininterrupta, transmitindo a mesma fé, Sacramentos e as cerimônias imutáveis, inalteradas em todos os climas, línguas e nações".1

No período de 1832 a 1834 - anos determinantes para a sua conversão - viajou por diversos países, com o intuito de conhecer as principais edificações góticas da Europa. Uma destas lhe chamou de modo especial a atenção: a igreja de São Lourenço, em Nuremberg. Ao entrar nela, Pugin surpreendeu-se com a magnificência deste edifício sacro, considerado um dos mais belos exemplares da arquitetura gótica alemã.

Começou por demorar-se em apreciar as esguias colunas da nave central, os vitrais e os altares laterais. Em seguida, seus olhos se fixaram numa imensa guirlanda de flores douradas, suspensa sobre o presbitério. E contemplou, absorto, a bela imagem da Virgem Maria colocada no centro desse grande círculo floral, recebendo do Anjo Gabriel o anúncio de que seria a Mãe de Deus. Movido pelo forte sentimento de enlevo que sentiu diante daquela representação, confidenciou pouco depois a um amigo: "Eu bem poderia fazer minhas as palavras do profeta Simeão: ‘Agora, Senhor, deixai ir em paz o vosso servo, pois meus olhos viram a vossa salvação' (Lc 2, 29-30)".2

"Tornei-me um humilde, mas verdadeiro, membro fiel"

Seu encanto pelo esplendor da liturgia católica aumentava a cada dia, e ele não resistiu durante muito tempo à "força irresistível da verdade", conforme suas próprias palavras.

O arquiteto do Big Ben.png

"Por mais de três anos", explica, "prossegui com toda sinceridade no estudo deste tão importante assunto, e a força irresistível da verdade foi penetrando em meu coração. Submeti de bom grado meu falível julgamento às decisões infalíveis da Igreja e, abraçando de alma e coração a sua fé e disciplina, tornei-me um humilde, mas verdadeiro membro fiel".3

Em outra ocasião, Pugin manifestou mais claramente a influência da arte cristã em sua conversão: "Aprendi as verdades da Igreja Católica nas criptas das velhas igrejas e catedrais europeias. Procurei a verdade na moderna igreja da Inglaterra e descobri que ela, desde que se separou do centro da unidade católica, tinha pouca verdade e nenhuma vida. Dessa maneira e sem ter conhecido um só sacerdote, ajudado apenas pela graça e misericórdia de Deus, resolvi entrar na sua Igreja".4

Daí em diante, Pugin consagrou o melhor de seu talento a serviço da Igreja, pois em sua alma já não existia distinção "entre a sua fé e a sua arte".5 Sua capacidade criativa manifestou-se prodigiosamente nas catedrais católicas de Birmingham (Inglaterra) e Enniscorthy (Irlanda), em igrejas como a de Saint Gilles, em Cheadle (Inglaterra), mas também no desenho de utensílios sagrados, púlpitos ou altares.

Revestir de pulcritude a Casa de Deus

O desejo de revestir de beleza a casa de Deus foi apontado por um dos seus biógrafos como uma de suas mais constantes aspirações. E tão forte era esse anelo que o autor aplicou ao arquiteto as palavras do Rei Profeta: "O zelo por tua casa me consome" (Sl 68, 10).6


Em seu entusiasmo pelas celebrações litúrgicas, insistia em que elas deviam ser sempre realizadas com pompa e esplendor. Isto o levou a doar ricos paramentos de ouro e púrpura para serem utilizados na solene cerimônia de inauguração da
Igreja de Santa Maria, em Derby.

Seu raio de ação estendeu-se também ao âmbito acadêmico. Escreveu diversos livros sobre liturgia e arquitetura, graças aos quais é considerado um dos mais influentes teóricos da arquitetura britânica do século XIX. Com apenas 25 anos, foi nomeado professor de História Eclesiástica em Scott e publicou em seguida um glossário sobre os costumes e os ornamentos eclesiásticos. Em sua principal obra, intitulada Contrastes, traça um paralelo entre as construções medievais e os edifícios erigidos em seu tempo, apontando a superioridade das primeiras.

O projeto da Torre do Big Ben

No dia 16 de outubro de 1834 um incêndio de grandes proporções destruiu quase todo o antigo Palácio de Westminster, cujas origens remontavam ao século XI. Para substituí-lo, a Câmara dos Lordes decidiu construir um novo prédio que sobrepujasse em beleza e magnificência o anterior Pugin, então com 24 anos, foi um dos escolhidos para projetá-lo.

A construção estendeu-se por muitos anos, e em 1850 ainda faltava o projeto da grande Torre do Relógio. Nesse período, viu-se Pugin acometido por uma doença que paulatinamente fez definhar sua força física, mas não seu gênio criador. Mesmo estando já gravemente enfermo, Sir Charles Barry decidiu encomendar-lhe o desenho dessa torre.

O arquiteto do Big Ben.png

Sentindo que lhe restava pouco tempo de vida, Pugin afirmou: "Devemos trabalhar pela causa enquanto temos fôlego".7 E nunca, segundo confidenciou a um amigo, trabalhara tão arduamente como na preparação desse projeto.

Muitas vezes, ao contemplar as paredes das catedrais ou estudar os textos litúrgicos, Pugin meditara sobre o admirável duelo da vida e da morte. Agora via essa batalha travar-se em seu próprio corpo. Deu de si mesmo este testemunho, alguns dias antes de falecer: "Aprendi a amar a Deus de tal forma que a morte nada tem de terrível aos meus olhos. Sinto-me resignado como se tivesse de fazer uma viagem".8 Com essas disposições, entregou a Deus sua alma no dia 14 de setembro de 1852, depois de receber os últimos Sacramentos.

Foi, pois, sob o signo da dor e do sofrimento cristãos que Pugin projetou a Torre do Big Ben, legando à Inglaterra um dos seus símbolos mais conhecidos. Nela se conjugam força e delicadeza, estabilidade e elevação. Serena e afável, ela representa a estabilidade dos valores perenes que jamais mudarão.

Pe. Inácio de Araújo Almeida, EP
(in "Revista Arautos do Evangelho", n. 153, p. 16 à 18)

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no link http://www.gaudiumpress.org/content/82994-O-arquiteto-do-Big-Ben. Autoriza-se a sua publicação desde que se cite a fonte.



 

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